
Um resumo da
História de Maceda
Maceda – Passado, Presente e Futuro
O passado de Maceda esconde-se nas brumas do Tempo.
Ao seu litoral, outrora vasto e ocupando grande parte da planície que se expande desde os outeiros da Ordem até aos do Campo e Carvalhal, aportaram com certeza naves Fenícias e Cartaginesas cujas tripulações, quer em acções de saque, quer internando-se no interior em busca de metais preciosos, por aqui vaquearam em surtidas imprevistas, de medo e terror, para os primeiros habitantes dos pequenas aglomerados de rudes choupanas então existentes.
Viviam esses primeiros habitantes da pesca abundante nas águas marítimas e nos rios, sobretudo o do Lourido, e da faina agrícola.
A conquista e ocupacão romanas provocaram transformações radicais nos costumes e modo de vida desses habitantes. Entre essas transformações avulta sobretudo a adopção da língua.
Deve ser durante essa ocupação que surge o nome indicativo desta terra.
Para a denominação das terras recorriam os romanos ao método referencial relacionado com o "topos" (características morfológicas do terrena); o "fitos" (vegetação existente) e o "antropos" (relativo aos donos da propriedade).
Qualquer destas três características poderá ter influenciado a escolha do nome de Maceda.
Com efeito o facto de Maceda se encontrar situada na parte extrema da Meseta Ibérica constituída por massas xistosas de resistente contextura, poderá ter dado origem ao citado nome, resultando assim o mesmo dum Topónimo.
Por outro lado a adjectivo latino "matiana" (de Mácio, amigo de César) reportam-nos ao substantivo apelativa de "Matiana Mala" ("certa qualidade de maçãs que tiveram o nome de um certo Mácio") e consequentemente a um possível antropónimo na origem do nome.
Parece-me porém mais defensável, até porque defendida por nomes ilustres de filologia e etnografia, a origem "fitonímica" do nome de Maceda.
Com efeito, a possível existência de inúmeras macieiras bravas, mais tarde enxertadas pelos romanos, amantes da boa fruta, terá sido a razão da primeira – "matiana" - a que se juntou o sufixo "eta" (agrupamento) donde resultou "matianeta" que naturalmente evoluiu para o denominativo actual.
Maceda será pois assim chamada por ser Terra de Maçãs.
Da ocupação romana ficaram-nos ainda alguns nomes como: Casal (casales); Campo (campus); Deveza (devexa); Quintã (quintana); Paço (palatium); Pedras Altas (petra); etc. Em relação a estas últimas e ao lugar do Lourido estou mesmo convencido que futuras explorações poderão fornecer aos vindouros elementos importantes para um melhor conhecimento da História de Maceda.
Com a invasão Árabe, no princípio de séc. VIII, esteve concerteza esta terra, como as circunvizinhas, sujeita a constantes assaltos e devastações sem que, contudo, os seus habitantes as tenham abandonado totalmente.
Aliás a dominação muçulmana não foi duradoura nesta zona do país. Com efeito nos finais de mesmo séc. VIII todo o território entre Douro e Minho é ocupado por Afonso III seguindo-lhe no séc. IX a ocupação das terras entre Douro e Mondego e nelas estabelecida a monarquia Cristã.
Deve ter sido durante essa ocupação época que se construiu a primeira igreja de S. Pedro de Maceda. Modesta, de traço românico, manteve-se, com algumas modificaçães e melhorias até aos princípios do séc. passado. Nesse mesmo período deve ter sido construído, ou reconstruído também o castelo da Vila de Feira.
Sujeitos na séc. X aos constantes assaltos dos bandos do terrível Almançor as populações não abandonaram as suas terras, limitando-se a fugir e a esconderem-se em lugares seguros, a elas regressando após a passagem dos terríveis malfeitores.
Desses tempos perduram ainda, na memória dos mais velhos, histórias de lutas, de mouras encantadas, de minas de oiro, este também localizado no fundo dos rios e poços e, sobretudo, da célebre mina que ligava o Castelo ao mar.
Nesta época viviam os habitantes de Maceda particularmente da agricultura e da pesca.
Com o aproveitamento e desassoreamento das terras abandonadas pelo mar, deve ter começado a recuperação das mesmas no reinado de D. Afonso III, passam exxas novas terras a ser "reguengas" e a sua fertilidade permite a sementeira de mais variados cereais. São sobretudo abundantes a aveia, a cevada, o centeio e o trigo. Devia produzir-se também o "milho alvo" que, depois da Renascença, foi substituído pelo "maiz".
É precisamente nessa época que a produção do milho aumenta trazendo como consequência o aproveitamento industrial das águas do rio Lourido. Dezenas de moinhos são ali instalados permitindo a transformação dos cerais em farinha e o seu consequente uso quer particular quer comercial.
Durante anos e anos, sobretudo até aos meados do séc. passada, foi este cereal muito abundante. Provam-no os inúmeros "canastros" ainda existentes bem como as eiras e casas da eira.
Para além dos cereais produziam estas terras, em abundância, batata e cebola, que, vendidas a intermediários, representavam para o agregado familiar um bom pecúlio. Estes produtos eram vendidos ao "quintal".
Usava-se também, em relação à cebola, enrestá-la e vende-la em "réstias" na feira da Sr.a da Ajuda, em Espinho para onde eram transportadas, alta madrugada, em carros de bois, no dia da feira das Cebolas.
Conjuntamente com o desenvolvimento agrícola desenvolve-se a pecuária. Cada lavrador tinha uma ou duas juntas de bois utilizadas no amanho das terras e nos transportes de produtos e estrumes. Nos sécs. XVII e XVIII, em tempo de safra, eram oinda utilizados na pesca do arrasto praticada na costa de Esmoriz, onde existiam as companhos da Ordem, da Vaca, de S. Pedro e S. Geraldo pertencentes a gentes de Maceda. Ali construíram os lavradores os seus palheiros onde guardovam os gados e onde descansavam da faina marítima. Já nos anos 30 são obrigados a retirar esses palheiros mais para sul, actual praia de Cortegaça, e onde também são dos primeiros a fixar-se.
Embora limitadas as artes e ofícios existiram também nesta terra. De carácter artesenal eram porém suficientes para satisfazer as necessidades locais. No foral de D. Manuel I alude-se a um "fereirinho" residente nas Canaveias. No séc. pasado outros existiram na Ordem e nas Canaveias que fabricavam e reparavam sobretudo utensílios agrícolas.
Havia também os chamados "mestres", pedreiros, carpinteiros, alfaiates, sapateiros e cesteiros. A arte destes últimos estendia-se ainda à confecção de "sorças" (sebes de vime entrançado), seguras por "fueiros" que serviam para resguardar, nos carros de bois, os produtos transportados.
Os sécs. XVII e XVIII foram de franco desenvolvimento para Maceda. Manifestam-no as muitas construções de aspecto senhorial, algumas delas ainda existentes, outras em considerável abandono. Para tal muito devem ter contribuído quer à Ordem de Malta, quer os Srs. da Feira então já com largos haveres nas lugares da Barra e Carvalhal.
Deve ser dos finais do séc. XVI, princípios do séc. XVII a construção da ermida de S. Geraldo e do belo cruzeiro acima do lugar do Campo.
Com o declínio das campanhas e a crise agrícola do séc. XIX viraram-se os habitantes desta terra para a emigração. Foram inúmeros os que em meados desse séc. a até aos meados do séc. XX se dirigiram a terras de Santa Cruz.
Dificilmente encontraremos, entre nós, uma família que não tenha entre os seus ascendentes alguém que não tenha emigrado para o Brasil. O "brasileiro" do final do séc. XIX e princípios do séc. XX, pela indumentária, pelo linguajar e pelos sobrados que manda construir, marca profundamente essa época.
Alguns tornam-se mesmos beneméritos e, quer ligando bens, quer contribuindo das mais diversas formas com a sua ajuda, desempenham um papel importante no desenvolvimento da sua terra. Esta emigração volta-se para França alguns anos mais tarde.
Com a elevação de Ovar a concelho, Maceda ficou a pertencer-lhe e daí resultaram alguns pequenos benefícios. Entre eles avulta o da abertura da estrada até Esmoriz mais tarde continuada até ao Porto e que foi chamada Estrada Nacional 109.
Durante dez enas de anos, Maceda permaneceu esquecida, ressurgindo particularmente com a construção da nova Igreja em tempos turbulentos da 1ª Republica e da 1ª Guerra Mundial.
Nos anos 30 surgem porem um conjunto de abertura de novas vias e inúmeros melhoramentos que vão transformar totalmente a sua face. Limito-me a enumerar apenas alguns que reputo de muito importantes: aquisição do terreno para alargamento do adro; abertura das ruas do Outeiro, Ordem, Atoleiros (hoje Rua Nova), Lamlos, Jogal, etc, etc e, sobretudo, a inauguração da luz elétrica. Foi uma época marcante na vida dos Macedenses operado por homens de rara coragem e bairrismo, cujos nomes, os vindouros, infelizmente, parecem ter deixado cair no esquecimento.
Com a 2ª Guerra Mundial, para além de surtos de miséria, surge a proliferação de pequenas tanoarias que durante breves anos florescem caindo pouco depois numa profunda crise. Muitos desses tanoeiros imigram espalhando-se pelo país chegando mesmo a fixar-se nas províncias mais distantes.
É nesse período que o então chamado Estado Novo procede ao plantio da Mata. Anos mais tarde e já com a estrada da Mata ligando Maceda ao Furadouro e uma ligação desta à praia (actualmente praia Velha), o mesmo Estado Novo, sem sermos ouvidos nem achados, como era seu costume, veio a impor que ali fosse construída a Base da NATO.
E se em relação à Mata ainda podiam os habitantes desta terra usufruir do privilégio de vir buscar lenha, agulha e mato, em dias determinados, em relação à Base Aérea nada, mesmo nada, nos foi dado em contrapartida do esbulho de hectares e hectares de terreno prepotentemente ocupados.
O bom relacionamento sempre havido entre as chefias militares e as autoridades locais pode ser lenitivo, mas não é de certeza o cumprimento de deveres dos governantes para direitos inalienáveis de governados.
Com a 25 de Abril de 1974, Maceda, como a generalidade das aldeias portuguesas, não tanto quanto seria necessário e desejável, também recebe alguns empreendimentos importantes: a construção do edifício e Auditório da Junta de Freguesia e consequente arranjo do Largo envolvente; a ampliação e restauro do edifício Caridade Godinho e o arranjo, embora discutível, do Largo do Campo envolvente da Capela de S. Geraldo. A mudança da praia ocorrida nos anos 60 e consequente abertura da nova via, que alguns responsáveis de então, um tanto levianamente, aceitaram, em acerto de limites da parte norte da freguesia veio criar condições a que no futuro, como algo já está a ser feito na presente, tenhamos uma praia diferente, aprazível e convidativa.
Para isso impõe-se educar as pessoas para a utilizarem com dignidade e criar condições para rentabilizar o ser uso de forma a podermos tarná-la cada vez mais apetecida.
Não pode também esquecer-se o papel desempenhado pela Igreja, pároco, comissão fabriqueira e paroquianos na Obra Social de grande envergadura e prestimosa utilidade.
Finalmente, há dois anos viu esta terra a água ligada ao domicílio, empreendimento valiosíssimo desta Câmara. Esperamos que venha a ser completado pelo tão ansiado Saneamento no mais curto prazo.
A juventude e o empenhamento do actual executivo da Junta de Freguesia dão-nos garantias duma fisionomia renovada para a nossa Terra. Tendo a nascente o complexo internacional do Europarque e a poente a Base da Nato, que não demorará estarmos certos, a transformar-se em aeroporto civil, mantendo características rurais, saudáveis e calmas, actualmente, Maceda elevada á categoria de vila, em 13 de Maio do ano transacto, reúne condições únicas para o seu desenvolvimento.
Quando falo em desenvolvimento não quero referir-me ao descontrolo imobiliário a que tem estado sujeito toda o litoral deste país e a que, em certa medida, também não é alheio, em certas zonas, este nosso concelho.
Refiro-me, sim, ao chamado desenvolvimento sustentado que procura sobretudo defender a qualidade de vida através da preserção da natureza e da criação de infra-estruturas absolutamente indispensáveis ao bem estar das populações.
E porque, salvo algumas excrescências, os Macedenses vão mantendo aquilo que podemos chamar de "direito à diferença" nas muitas habitações unifamiliares que vão construindo, sem aspecto talaciosamente grandioso, mas particularmente funcionais e esteticamente agradáveis, na defesa de formas e materiais ancestrais de arquitectura sem abandonar os métodos modernos e seleccionados do presente, a manter-se esta mentalidade, Maceda será, no meio das florestas de cimento, um oásis verde e aprazível.
Para tal importa que os responsáveis eleitos pelo povo, a começar pelos responsáveis camarários, estejam atentos aos sinais dos tempos e aos exemplos condenáveis que nos rodeiam e descaracterizam muitas das terras deste país, fruto da irreflexão, do fechar dos olhos e ouvidos a vozes autorizadas de alerta que na altura se não fizeram ouvir e se silenciaram com as argumentos de progresso e desenvolvimento, tantas vezes escondendo única e exclusivamente a cupidez desmedida e interesses inconfessáveis que pouco depois vêm a acarretar consequências nefastas de difícil e onerosa solução.
Há que estar alerta com a nova classe de "beneméritos" instalada neste país, que longe de pensar nos outros, da dar alguma coisa aos outros, se servem deles para facilmente encherem os bolsos sobre o manto fingida do benemerente progresso que apenas pretende esconder o lucro fácil e imediato.
Perspectivando o futuro, Maceda tem de preservar a sua identidade, a seu nome: terra de verdura e flores.
Tem de defender a sua praia, a sua mata, os seus rios e regatos, construir casas, como só ela sabe, com o seu jardim e pomar, ter as suas ruas limpas, os seus jardins cuidados, criar campos de jogos para a prática desportiva dos seus jovens e habitações socias condignas para os mais desfavorecidos.
É preciso estar atendo à cupidez de abutres que vêm nela uma oportunidade única de satisfazerem os seus apetites.
Nesta altura paira sobre nós um enorme perigo. Fala-se na possível mudança do complexo petrolífero de Leça para a nossa mata e para a de Cortegaça!!!
O que isso representa de prejuízos ambientais é inimaginável.
Mais que os prejuízos isso é também uma afronta a este povo simples e bom já tão castigado e prejudicado.
Tem este povo de estar atento. É que, se poderá parecer impensável toda uma mudança imediata do ferido complexo, não o é no entanto, e é até fácil, a imediata mudança do local de distribuição dos produtos petrolíferos. Basta recordar que um oleoduto já existe, construído há anos, ambora nunca utilizado, desde Leça até aos limites da Base.
E, como não há fumo sem fogo, quem sabe se esta nuvem de fumo agora lançada não esconderá o verdadeiro fogo que está por detrás? São pois de alerta as minhas últimas palavras para todos os meus conterrâneos nesta revista sobre Maceda.
É preciso estar atento pois longe vai o tempo em que tudo se fazia nas nossas costas, sem nos ouvirem, considerando-nos uns "caladinhos" sem reacção, mesmo quando, deliberadamente, nos prejudicavam e atentavam contra os nossos direitos.
Alerta! Diriam os nossos Escutas.
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